Quando a gente sabe que tem que fazer um desligamento já dá uns 3 tipos de ruins diferentes, não é mesmo? Aí, quando alguém vem e fala que existe um tal de desligamento humanizado, bate aquele alívio. É como se a palavra “humanizado” fosse mágica e milagrosamente transformasse isto em algo feliz.
Já dá até pra se imaginar fazendo uma demissão, a pessoa chorando de alegria, fazendo um discurso emocionado de gratidão, depois vai toda a equipe comemorar no barzinho da esquina e… não, péra.
Sinto muito em te dizer, mas não é assim.
Oferecer ao ex-funcionário treinamentos e orientação de carreira, extensão do plano de saúde e outros benefícios é lógico que vai deixá-lo mais aliviado, seguro e amparado – depois que baixar a poeira da demissão, mas não feliz.
(Quase) Ninguém vai sair da sala do (a) chefe comemorando a demissão como se fosse gol do Brasil em final de Copa do Mundo.
Já vi muitas pessoas que imploraram (literalmente) para serem desligadas, ficarem desesperadas quando a demissão de fato veio. Imagina quem não quer o desligamento?
No dia “D” vem todas as lembranças possíveis a tona, especialmente a lembrança do aluguel, da luz, água, internet, escola dos filhos, curso de inglês, pensão, médico, financiamento do apê, compras de mercado, parcela e seguro do carro… a lista de lembranças inconvenientes é gigante.
Mesmo as pessoas que preveem a demissão e sabem que a relação com a empresa já não é saudável, ficam apreensivas. Provavelmente este sentimento vem por causa do que as espera nos dias seguintes: o temido desconhecido.
Mas, se desligamento humanizado não é desligamento feliz, por que fazemos?
O processo de demissão humanizada tem 3 funções (de várias):
- Tornar o processo mais “digerível” para o (a) líder que fará o desligamento: Seguir um “script” bem desenhado e fazer o planejamento do processo ajuda a deixar o líder muito mais seguro e confiante da demissão. Sentindo-se assim, o líder conseguirá equilibrar as emoções e sofrer menos com o processo (sim, líderes também sofrem no processo).
- Minimizar o impacto da demissão para o (a) funcionário (a) no dia da demissão: por que minimizar o impacto e não eliminar o impacto? Porque não importa o malabarismo que você faça no dia do desligamento, se o funcionário não quer ser desligado, ele não vai ficar feliz, ponto. Então, é preciso trabalhar para que este dia seja o menos traumático possível.
- Agilizar o fim do luto pós-desligamento para o funcionário: a demissão é marcada por dois grandes momentos para o funcionário, 1) o dia em que aconteceu e 2) os dias que seguem. Passado o dia “D”, a adrenalina vai baixando e a raiva ou tristeza vai diminuindo. O que fica é o sentimento de bons momentos vividos. Quando isto acontece, é sinal que o luto foi superado e a pessoa poderá seguir adiante. Sem um desligamento humanizado, este luto não passará tão rápido e a mágoa com a empresa pode ser eterna (quantos processos trabalhistas não são iniciados por mágoa?).
- [Bônus] Fazer com que o retorno ao mercado de trabalho seja mais rápido e menos solitário: algumas empresas já estão com um processo de demissão mais desenhado e já oferecem treinamentos e orientação de carreira para funcionários desligados. Isto pode acelerar e muito o retorno do ex-funcionário ao mercado de trabalho, mudando o significado da demissão: de fim para recomeço.
Desligamento não pode ser romantizado, é um processo de longo prazo, começa muito antes e termina muito depois do dia da demissão. É o fim de um relacionamento, gera desconforto, tristeza, sentimento de incompetência e quando mal conduzido gera traumas difíceis de superar.